A palavra “robô” foi inventada para uma peça tcheca de 1921, e os robôs dela não eram de metal

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A peça R.U.R., de Karel Čapek, deu ao mundo a palavra robô, sugerida pelo irmão dele, Josef. Ela vem de robota, trabalho forçado, e os primeiros robôs eram de carne.
Todo robô do mundo, dos braços das fábricas aos aspiradores de pó e androides do cinema, deve o nome a uma peça de teatro. A palavra “robô” foi inventada para R.U.R., um drama de ficção científica do escritor tcheco Karel Čapek que estreou em 1921. E os primeiros robôs nem eram de metal.
Segundo a história que o próprio Čapek contou depois num jornal tcheco, a ideia da peça estava pronta, mas ele não sabia como chamar seus trabalhadores artificiais. Pensava em “labori”, da palavra latina para trabalho, e não gostava. Então foi falar com o irmão, Josef, um pintor, que estava ocupado no cavalete. Josef ouviu e, com o pincel na boca, resmungou: “Então chama de roboti.” Em tcheco, robota significa trabalho forçado, o tipo de trabalho obrigatório que os servos faziam nas terras do senhor. A raiz da palavra, rab, quer dizer escravo.
R.U.R. é a sigla de Rossumovi Univerzální Roboti, Robôs Universais de Rossum, o nome da empresa da peça. Numa ilha distante, ela fabrica em série pessoas artificiais para trabalhar nas fábricas e lutar nas guerras. Não são máquinas com engrenagens e parafusos. São feitos de um material orgânico sintético, mais perto do que hoje chamaríamos de androides ou clones, e parecem tão humanos que os visitantes não conseguem diferenciá-los. No fim, os robôs se rebelam e acabam com quase toda a humanidade.
Até a estreia tem uma reviravolta. A abertura oficial estava marcada para o Teatro Nacional, em Praga, mas foi adiada para 25 de janeiro de 1921. Um grupo de teatro amador da cidade de Hradec Králové, que deveria encenar a peça depois de Praga, nunca foi avisado do adiamento e se apresentou em 2 de janeiro. Por isso, segundo a Televisão Tcheca, a verdadeira estreia mundial do robô aconteceu numa cidade do interior, três semanas antes da capital.
A peça foi um sucesso estrondoso. Foi traduzida para uns trinta idiomas em poucos anos e, como a maioria dessas línguas não tinha palavra para a ideia, simplesmente adotou “robô”. A primeira montagem em inglês chegou à Broadway em 1922. Čapek, horrorizado com a matança industrial da Primeira Guerra Mundial, queria que a peça fosse um alerta sobre a tecnologia fugindo do controle humano. Assim como o Banco Imobiliário, que nasceu como uma lição contra senhorios gananciosos e virou um jogo sobre esmagar os adversários, R.U.R. transformou um alerta num ícone da cultura pop.
A palavra continuou crescendo. Em maio de 1941, um jovem Isaac Asimov publicou o conto “Liar!” (“Mentiroso!”) na revista Astounding Science Fiction, e nele usou a palavra “robótica” pela primeira vez de que se tem registro, segundo o Historical Dictionary of Science Fiction. Vinte anos depois, em 1961, o primeiro braço robótico industrial, o Unimate, começou a trabalhar numa linha de montagem da General Motors em Nova Jersey. Seus criadores, George Devol e Joseph Engelberger, eram fãs de ficção científica.
Čapek não viveu para ver nada disso. Morreu em dezembro de 1938, poucos meses depois de a Alemanha nazista tomar parte da Tchecoslováquia. Josef foi preso pela Gestapo em 1939 e morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen em abril de 1945. Mas a palavra que os dois irmãos criaram num ateliê de pintura hoje pertence a quase todas as línguas da Terra.
Fontes: The Guardian (2021); The MIT Press Reader; Televisão Tcheca (ČT24); Historical Dictionary of Science Fiction. Capa_-_Com%C3%A9die_des_Champs-%C3%89lys%C3%A9es,_26_mars_1924.jpg): R.U.R. na Comédie des Champs-Élysées, Paris, 1924, foto de Henri Manuel, Wikimedia Commons, domínio público.