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Patrick Stewart interpretou Otelo como o único ator branco do elenco

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Patrick Stewart sorrindo e falando ao microfone no palco da San Diego Comic-Con em 2019
Gage Skidmore / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

·4 min de leitura·Cultura Pop·0 visualizações

Em 1997, Patrick Stewart estrelou em Washington um Otelo com raças invertidas: ele era o mouro e o único branco num elenco todo de atores negros.

Em novembro de 1997, Patrick Stewart, o ator que milhões conheciam como o capitão Jean-Luc Picard, subiu a um palco em Washington para interpretar Otelo, o general mouro de Shakespeare. Ele era o único ator branco do elenco. Todos os outros papéis, de Desdêmona ao traiçoeiro Iago, ficaram com atores negros, numa montagem que ficou conhecida como o Otelo "fotonegativo".

A produção da Shakespeare Theatre Company foi dirigida por Jude Kelly, então diretora artística do West Yorkshire Playhouse, na Inglaterra. Patrice Johnson fez Desdêmona, Ron Canada fez Iago e Franchelle Stewart Dorn fez Emília. A temporada foi de novembro de 1997 até janeiro de 1998, e uma sessão de 13 de dezembro de 1997 foi gravada em vídeo, segundo o arquivo de gravações de Shakespeare do Learning on Screen.

A ideia foi do próprio Stewart. Ele contou à Playbill que se imaginava como Otelo desde os 14 anos, mais ou menos. Mas, quando ficou velho e experiente o bastante para o papel, já não era aceitável um ator branco pintar o rosto de preto e fingir ser africano. Em vez de desistir, ele inverteu a peça: um forasteiro branco dentro de uma sociedade negra. Sua esperança era que a troca estimulasse "uma visão muito mais ampla dos fundamentos do racismo".

A ideia só faz sentido diante da longa história do papel. Por gerações, Otelo foi quase sempre vivido por atores brancos com maquiagem escura. A crítica do New York Times sobre a montagem de Washington citou um manual de maquiagem teatral de 1827 que ensinava: "Um tom moreno-amarelado é agora a cor usada para o galante mouro". Stewart e Kelly simplesmente tiraram a maquiagem e deixaram o elenco falar por si.

Retrato pintado do ator Ira Aldridge como Otelo, com manto vermelho e túnica verde, por volta de 1830
Ira Aldridge como Otelo, pintado por Henry Perronet Briggs por volta de 1830. Domínio público via Wikimedia Commons

Atores negros tiveram de lutar pelo papel. Em abril de 1833, o ator nova-iorquino Ira Aldridge substituiu o moribundo Edmund Kean como Otelo no Theatre Royal, em Covent Garden. Foi a primeira vez que um ator negro fez o papel num palco do West End, como registra o English Heritage. O público aplaudiu, mas a crítica foi hostil, e ele interpretou Otelo só duas vezes antes de a temporada ser cancelada, segundo a Folger Shakespeare Library. Mais tarde, ele fez fama em turnês pela Europa continental.

Foto em preto e branco de Paul Robeson como Otelo, de túnica listrada, diante de Uta Hagen como Desdêmona
Paul Robeson e Uta Hagen no Otelo do Theatre Guild na Broadway, 1943-44. Biblioteca do Congresso dos EUA, domínio público via Wikimedia Commons

Nos Estados Unidos, a virada veio em outubro de 1943, quando Paul Robeson estrelou o Otelo do Theatre Guild na Broadway, com Uta Hagen como Desdêmona e José Ferrer como Iago. A montagem teve 296 apresentações, até hoje o recorde de qualquer peça de Shakespeare na Broadway, segundo a Biblioteca de Harvard e o Guinness World Records.

A versão de Stewart virou a pergunta de cabeça para baixo. Em vez de perguntar como um ator branco poderia se passar por Otelo, ela convidava a plateia a observar um homem que é a única pessoa da sua cor em todos os ambientes. O crítico do Times escreveu que a companhia buscava quebrar estereótipos e mostrar como a investigação de Shakespeare sobre o "outro" se adapta infinitamente. Nem todos se convenceram: a pesquisadora Denise Albanese argumentou que a escolha do elenco tratava a raça como algo encenado e, assim, diminuía sua importância.

Stewart morreu em 28 de outubro de 2026, em sua casa em Los Angeles, aos 86 anos, como informou a AP. A maioria das homenagens lembrou Picard e o Professor X, mas o Otelo que ele sonhava fazer desde a adolescência continua sendo um dos experimentos mais ousados de uma carreira no teatro que começou muito antes de Star Trek.

Fontes: Shakespeare Theatre Company; Learning on Screen; Playbill (1997); The New York Times (1997); English Heritage; Folger Shakespeare Library; Biblioteca de Harvard; Guinness World Records; AP (2026). Capa: Patrick Stewart na San Diego Comic-Con de 2019, por Gage Skidmore.jpg).

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