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Tardígrados: os animais de meio milímetro que sobreviveram ao vácuo do espaço

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Imagem de microscópio eletrônico de varredura de um tardígrado, Milnesium tardigradum, com corpo roliço e patas curtas
Schokraie et al., PLoS ONE (2012) / Wikimedia Commons · CC BY 2.5

··4 min de leitura·Ciência·108 visualizações

Eles vivem no musgo do seu muro, ficam anos sem água e voltaram vivos depois de 10 dias no espaço aberto. Conheça os animais mais resistentes da Terra.

Há uma boa chance de que uma criatura capaz de sobreviver no espaço esteja vivendo a poucos metros de você agora. Pegue um tufo de musgo úmido de um muro ou de uma árvore, deixe de molho na água e olhe num microscópio simples. Cedo ou tarde você vai ver um bichinho gordinho e translúcido, com oito perninhas curtas, andando devagar como um ursinho. É um tardígrado.

Eles foram descritos pela primeira vez em 1773 pelo pastor alemão Johann August Ephraim Goeze, que os chamou de “kleiner Wasserbär”, pequeno urso-d’água. Três anos depois, o cientista italiano Lazzaro Spallanzani deu a eles o nome Tardigrada, “os que andam devagar”. Hoje se conhecem mais de 1.300 espécies, vivendo do Himalaia ao fundo do mar. A maioria tem menos de meio milímetro; os maiores mal passam de um milímetro.

O superpoder deles se chama anidrobiose, vida sem água. Quando o ambiente seca, os tardígrados recolhem as patas e a cabeça, perdem quase toda a água do corpo e encolhem num barrilzinho seco chamado “tun”. Nesse estado, o metabolismo fica quase indetectável. Eles podem ficar assim por anos e, quando a água volta, se reidratam e simplesmente saem andando.

No estado de tun, testes de laboratório mostraram tardígrados sobrevivendo a temperaturas perto do zero absoluto, cerca de −272 °C, e a breves exposições a calor perto ou até acima do ponto de ebulição da água. Eles aguentaram pressões de 7,5 gigapascals, umas 75 mil vezes a pressão do ar à nossa volta, e doses de radiação centenas de vezes maiores do que as que matariam um ser humano.

Em setembro de 2007, a Agência Espacial Europeia resolveu testar o limite final. No experimento TARDIS, tardígrados secos voaram na cápsula russa FOTON-M3 e passaram uns dez dias expostos ao espaço aberto, a uma altitude de cerca de 260 a 280 quilômetros. Os resultados, publicados na Current Biology em 2008 por uma equipe liderada por K. Ingemar Jönsson, foram impressionantes: o vácuo e o frio do espaço sozinhos não afetaram a sobrevivência. O que afetou foi a luz ultravioleta completa do Sol. No grupo exposto a tudo, só alguns sobreviveram, mas isso bastou para torná-los os primeiros animais conhecidos a sobreviver à exposição direta ao espaço.

Parte do segredo foi descoberta em 2016, quando pesquisadores japoneses liderados por Takekazu Kunieda e Takuma Hashimoto sequenciaram o genoma da espécie Ramazzottius varieornatus. Eles encontraram uma proteína exclusiva dos tardígrados e a chamaram de Dsup, de “damage suppressor”, supressor de danos. Ela parece envolver o DNA como um escudo. Quando os cientistas colocaram o gene em células humanas cultivadas em laboratório, essas células sofreram uns 40% menos danos no DNA causados por raios X. Hoje se estuda se ideias assim poderiam um dia ajudar a proteger astronautas ou conservar vacinas sem geladeira.

Tardígrados já foram até à Lua, embora sem querer. Em abril de 2019, a sonda israelense Beresheet caiu na superfície lunar levando milhares de tardígrados secos num pequeno arquivo. Um estudo de 2021 disparou tardígrados com um canhão de gás para recriar o impacto e concluiu que eles quase certamente não sobreviveram à queda. A Lua, porém, fica logo ali: a máquina humana mais distante, a Voyager 1, está a cerca de um dia-luz da Terra.

Uma última surpresa: tardígrados não são imortais. Os ativos vivem de alguns meses a uns dois anos e são bem mais frágeis quando estão acordados. O talento deles não é ser invencível, mas saber pausar a vida e esperar dias melhores.

Fontes: Agência Espacial Europeia (experimento TARDIS), Jönsson et al., Current Biology (2008), Hashimoto et al., Nature Communications (2016), Traspas & Burchell, Astrobiology (2021). Capa: Milnesium tardigradum no microscópio eletrônico de varredura, Schokraie et al., PLoS ONE (2012), CC BY 2.5.

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