O polvo tem três corações e sangue azul, e um deles para quando ele nada

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Dois corações bombeiam o sangue pelas brânquias, um terceiro leva o sangue ao corpo, e o cobre deixa tudo azul. O detalhe: o coração principal para toda vez que o polvo nada.
O polvo tem três corações e sangue azul, e toda vez que ele nada, um desses corações para de bater. Parece charada, mas é só o jeito como o corpo do polvo funciona.
Os três corações dividem o trabalho. Dois deles, chamados corações branquiais, ficam na base das brânquias e empurram o sangue através delas, onde ele solta gás carbônico e recebe oxigênio. O terceiro, o coração sistêmico, bombeia esse sangue rico em oxigênio para os órgãos e músculos. O National Aquarium, de Baltimore, compara ao coração humano: os dois corações pequenos fazem o papel do nosso lado direito, que manda o sangue para os pulmões, e o grande faz o papel do lado esquerdo.
A cor azul vem da química. Nosso sangue transporta oxigênio com a hemoglobina, uma proteína feita em torno do ferro, que fica vermelha quando se liga ao oxigênio. Os polvos, assim como as lulas, os límulos, algumas tarântulas e escorpiões, usam a hemocianina, uma proteína feita em torno do cobre. Quando ela se liga ao oxigênio, fica azul. E, em vez de ficar guardada dentro de glóbulos vermelhos, como a nossa, ela flutua solta no sangue.
Só que há um porém: a hemocianina transporta oxigênio pior que a hemoglobina. No seu livro clássico sobre a fisiologia do polvo, o zoólogo Martin Wells observou que o sangue dos cefalópodes carrega menos de 5 mililitros de oxigênio a cada 100 mililitros, contra cerca de 15 nos peixes. Os três corações ajudam a compensar, bombeando o sangue pelo corpo com pressão mais alta.
Aí vem a parte mais estranha. Em 1987, Wells e colegas mediram a pressão sanguínea de polvos-comuns se movendo livremente no laboratório. Quando o polvo nada por jato, expulsando água do corpo, a pressão dentro do manto sobe tanto que o sangue não consegue voltar ao coração sistêmico, e ele simplesmente para. Como o polvo só aguenta uma pequena dívida de oxigênio, o estudo concluiu que nadar por jato é impossível por mais de alguns metros. É por isso que os polvos costumam preferir rastejar pelo fundo e deixar o nado para as fugas.
O sangue azul tem vantagem no frio. Um estudo de 2015 com o polvo antártico Pareledone charcoti, que vive em água perto do ponto de congelamento, mostrou que ele carrega muito mais hemocianina que os parentes de águas quentes, e que a sua hemocianina continua entregando oxigênio a 0 °C. A mesma proteína, porém, perde a força de segurar oxigênio em água mais ácida, e o Smithsonian alerta que isso pode complicar a vida dos polvos à medida que os oceanos ficam mais quentes e mais ácidos.
A natureza está cheia de projetos assim: na Austrália, o vombate faz cocô em forma de cubo. Mas poucos animais levaram o próprio encanamento tão longe quanto o polvo, um molusco parente das ostras que acabou com três corações, sangue azul e um coração que desliga sempre que ele resolve nadar.
Fontes: Smithsonian Ocean; National Aquarium; Wells et al., Journal of Experimental Biology (1987); Martin Wells, Octopus: Physiology and Behaviour of an Advanced Invertebrate (1978); Oellermann et al., Frontiers in Zoology (2015); BBC Science Focus; Smithsonian Magazine. Capa: polvo-comum (Octopus vulgaris), por H. Zell, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

