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Poço de São Patrício: o poço de 1537 com duas escadas que nunca se encontram

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Vista de cima do poço de tijolos em espiral do Poço de São Patrício em Orvieto, Itália, com janelas em arco na escada dupla
Davide Papalini / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

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Em Orvieto, na Itália, um papa que fugia do Saque de Roma mandou cavar um poço de 53 metros com duas escadas em espiral, para que as mulas que desciam nunca cruzassem as que subiam.

Na cidade italiana de Orvieto existe um poço com cerca de 53 metros de profundidade e 13 de largura, envolvido por duas escadas em espiral de 248 degraus cada uma, que nunca se tocam. Terminado em 1537, o Poço de São Patrício permitia que mulas descessem vazias por uma escada e subissem carregadas de água pela outra, sem nunca se cruzarem.

O poço nasceu do pânico. Em maio de 1527, tropas do imperador Carlos V saquearam Roma, e o papa Clemente VII fugiu para Orvieto, uma cidade no alto de um bloco de tufo vulcânico cercado de penhascos. A rocha tornava a cidade difícil de atacar, mas também deixava a água escassa. Se Orvieto fosse sitiada, o papa e a população poderiam morrer de sede muito antes de qualquer exército subir as muralhas.

Clemente entregou a obra a Antonio da Sangallo, o Jovem, arquiteto florentino que também trabalhou na Basílica de São Pedro. Em vez de um poço simples com corda e balde, que seria lentíssimo àquela profundidade, Sangallo envolveu o poço central com duas rampas helicoidais independentes, uma construída sobre a outra. Cada uma tem sua própria porta, em lados opostos do prédio redondo da entrada.

Os degraus são baixos e largos, pensados para animais de carga, e não para pessoas. Segundo o site oficial de turismo da Úmbria, 72 janelões se abrem das rampas para o poço central e deixam entrar a luz do dia, que vai sumindo à medida que se desce. No fundo, uma pequena ponte atravessa a água e liga as duas escadas, para que a mula fosse carregada e desse a volta sem bloquear ninguém.

Vista de baixo para cima do poço de São Patrício em Orvieto, com fileiras de janelas em arco
Vista a partir do fundo do poço. Carlo Dominioni, CC BY 4.0 via Wikimedia Commons

A geologia tornou o projeto possível. Um estudo de 1983 no Journal of the Japanese Association of Groundwater Hydrology descreve as camadas: tufo macio no alto, fácil de cortar com cinzel, e sedimentos marinhos mais antigos embaixo, onde a argila retém a água subterrânea em aquíferos arenosos. As paredes foram revestidas com tijolos. Uma nascente natural mantém o nível da água estável, e um canal escoa o excesso.

A obra levou uma década. Sangallo viajava muito, então Giovanni Battista da Cortona acompanhou a escavação e Simone Mosca esculpiu a decoração. Clemente VII morreu em 1534 sem ver o poço pronto. Ele foi concluído no papado de Paulo III, cujos lírios da família Farnese ainda enfeitam o exterior, ao lado de uma inscrição em latim que quer dizer, mais ou menos, "o que a natureza negou à fortaleza, o engenho humano supriu".

O nome famoso veio bem depois. Por três séculos ele foi apenas o Poço da Fortaleza, por causa do castelo Albornoz, ali perto. No século 19, frades de um convento local passaram a chamá-lo em referência ao Purgatório de São Patrício, uma caverna numa ilha do Lough Derg, na Irlanda, que a lenda medieval descrevia como porta para o além. Em italiano, "um poço de São Patrício" ainda significa uma fonte de dinheiro sem fim.

Xilogravura do século 19 mostrando o prédio redondo da entrada do Poço de São Patrício na beira do penhasco de Orvieto
A entrada do poço, xilogravura de Giuseppe Barberis. Domínio público via Wikimedia Commons

Mesmo antes de ficar pronto, o poço já era um símbolo. Benvenuto Cellini, o grande ourives, fez para Clemente VII uma medalha que mostra Moisés batendo numa rocha para fazer brotar água, com o lema "Ut bibat populus", para que o povo beba, como lembra o escritório de turismo de Orvieto.

O historiador da arte Rocky Ruggiero desce a escada dupla (vídeo em inglês).

Hoje os visitantes compram ingresso e percorrem os mesmos 248 degraus. Em 2022, o poço entrou para a Rede Global de Museus da Água, iniciativa apoiada pelo programa de água da UNESCO, como noticiou a agência ANSA.

Fontes: Ministério da Cultura da Itália; Umbria Tourism; Takamura, Journal of the Japanese Association of Groundwater Hydrology (1983); Live Orvieto; Global Network of Water Museums; ANSA (2022); Wikipedia, Pozzo di San Patrizio. Capa: Interior do Poço de São Patrício, Davide Papalini, CC BY-SA 3.0.

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