Sewell, a cidade mineira dos Andes onde as escadas substituíram as ruas

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Sewell, cidade do cobre a 2.000 metros de altitude nos Andes chilenos, não tinha ruas nem carros. Seus 15 mil moradores subiam uma escadaria gigante.
No alto dos Andes chilenos, a mais de 2.000 metros de altitude, existe uma cidade onde nunca circulou carro, porque não havia ruas. Sewell, construída para os trabalhadores da maior mina subterrânea de cobre do mundo, foi organizada em volta de uma escadaria gigante, e no auge, em 1968, abrigava cerca de 15 mil pessoas que iam a todo lugar a pé, subindo e descendo degraus.
A história começa em 29 de abril de 1905, quando o Ministério da Fazenda do Chile autorizou a americana Braden Copper Company, fundada pelo engenheiro William Braden, a explorar a jazida de cobre El Teniente, abandonada desde o fim do século 19. Ao lado da mina surgiu um acampamento pequeno e espalhado, chamado primeiro de El Molino ou El Establecimiento.
O nome veio uma década depois. Em março de 1915, o acampamento foi rebatizado em homenagem a Barton Sewell, presidente da empresa, que morreu em Nova York naquele ano. Segundo o Serviço Nacional do Patrimônio Cultural do Chile, ele nunca pisou no Chile nem conheceu El Teniente, mas tinha apoiado a aposta de Braden na mina.
As encostas do Cerro Negro eram íngremes demais para veículos com rodas, então os construtores fizeram algo incomum. O Conselho de Monumentos Nacionais do Chile explica que Sewell não tem quarteirões geométricos: cada prédio fica onde o terreno permite, e todos os caminhos internos são trilhas e escadas para pedestres. A espinha dorsal é a Escalera Central, que sobe da estação de trem até o ponto mais alto da cidade, com pracinhas e escadas secundárias saindo dela.

As casas foram feitas de madeira nativa, com até três ou quatro andares, algo excepcional para um acampamento de montanha, e pintadas de verde, amarelo, vermelho e azul. Um bloco, o Edifício 152, foi o único construído contra a encosta, com nove andares escalonados. A cidade tinha hospital, quartel de bombeiros, clube social, escola industrial e cinema.
Tudo chegava de trem. Uma ferrovia de bitola estreita subia desde a cidade de Rancagua, a cerca de 60 quilômetros, e foi a linha vital de Sewell por décadas. A vida na montanha era dura: o inverno trazia muita neve, avalanches e o risco constante de acidentes ligados à mina.

O fim veio com a nacionalização. O Estado chileno comprou 51% da empresa em 1967 e assumiu o controle total do cobre em 1971. Manter famílias na montanha era caro, então os trabalhadores foram transferidos aos poucos para Rancagua, e a nova Carretera del Cobre, a Estrada do Cobre, substituiu a ferrovia. Muitos prédios foram demolidos até que uma política de conservação interrompeu a destruição.
O que sobrou impressiona. Sewell virou Monumento Nacional em 1998 e, em 13 de julho de 2006, a UNESCO a incluiu na Lista do Patrimônio Mundial como exemplo excepcional de cidade de empresa. A área protegida, de 17,2 hectares, preserva cerca de 38% das moradias originais e 80% dos prédios industriais, segundo a UNESCO. A estatal Codelco ainda opera ali uma usina concentradora e abriu um museu da mineração do cobre na antiga escola industrial.
Hoje ninguém mora em Sewell, e carros particulares não podem subir a montanha. Os visitantes chegam em passeios organizados e sobem as mesmas escadas que já foram as únicas ruas da cidade.
Fontes: Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO; Consejo de Monumentos Nacionales de Chile; Servicio Nacional del Patrimonio Cultural; Codelco, história da cidade das escadas; Codelco, um assentamento mineiro de valor universal; Memoria Chilena, Biblioteca Nacional; Wikipedia, Sewell, Chile. Capa: Escadaria principal de Sewell, Hiroki Ogawa, CC BY 3.0.jpg).