Ninguém tinha fotografado uma lula-gigante viva nas profundezas até 2004

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A lula-gigante alimentou lendas de monstros marinhos por séculos, mas as primeiras fotos de uma viva no fundo do mar só foram feitas em 2004, no Japão.
A lula-gigante inspira histórias de monstros marinhos há séculos, mas ninguém tinha fotografado uma viva no fundo do oceano até 30 de setembro de 2004. Naquela manhã, uma câmera pendurada a 900 metros de profundidade perto das ilhas Ogasawara, no Japão, flagrou uma Architeuthis enrolando os tentáculos em uma lula usada como isca.
As imagens foram feitas pelos zoólogos Tsunemi Kubodera, do Museu Nacional de Natureza e Ciência do Japão, e Kyoichi Mori, que passaram três temporadas, de 2002 a 2004, fazendo 23 lançamentos de câmeras com isca. Eles escolheram o local seguindo cachalotes, que mergulham ali para caçar lulas. O estudo saiu na Proceedings of the Royal Society B em 2005.
O encontro virou uma luta de quatro horas. Um dos longos tentáculos de captura da lula ficou preso num anzol, e a câmera, que disparava a cada 30 segundos, fez mais de 550 fotos enquanto o animal tentava se soltar. Em certo momento, ele arrastou o equipamento inteiro de 900 para 600 metros. Depois de 4 horas e 13 minutos, o tentáculo se rompeu. Os pesquisadores recolheram um pedaço de 5,5 metros cujas ventosas ainda grudavam no convés e nos dedos deles, e estimaram que a lula tinha mais de 8 metros.

As fotos também mudaram a forma como os cientistas viam o animal. Até então, muitos imaginavam a lula-gigante como um bicho lento, que vagava à deriva. Kubodera e Mori concluíram que ela é uma predadora bem mais ativa, que ataca as presas com os tentáculos longos e as enrosca.
O vídeo demorou mais. Em julho de 2012, uma expedição financiada pela emissora japonesa NHK e pelo Discovery Channel voltou a Ogasawara. Segundo a Nature, um sistema de câmera chamado Medusa, criado pela exploradora do mar profundo Edith Widder, encontrou lulas-gigantes cinco vezes. O truque era uma luz vermelha fraca, que poucos animais das profundezas enxergam, e uma isca eletrônica que imita o brilho de uma água-viva sendo atacada. Cerca de uma semana depois, Kubodera e o piloto Jim Harris viram de um submersível uma lula se alimentar da isca por 18 minutos, com a pele brilhando em tons de dourado e prateado.
A câmera de Widder acertou de novo em junho de 2019, desta vez no Golfo do México, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Nova Orleans. Logo no quinto lançamento, a Medusa filmou uma lula de pelo menos 3 a 3,7 metros atacando a água-viva falsa. Um especialista em lulas do Smithsonian avaliou que era quase certamente uma lula-gigante jovem. Como a equipe contou à NOAA, um raio atingiu o navio cerca de 30 minutos depois de eles verem o animal na tela. O vídeo sobreviveu.
A lula-gigante enxerga esse mundo escuro com os maiores olhos do reino animal, empatada só com a lula-colossal. Uma equipe liderada por Dan-Eric Nilsson, da Universidade de Lund, mediu um globo ocular de cerca de 27 centímetros, com pupila de 9 centímetros. Na Current Biology, em 2012, eles calcularam que abaixo de 600 metros esses olhos conseguem notar um cachalote a mais de 120 metros pelo brilho fraco do plâncton agitado pela baleia.
Até que tamanho ela chega? O cientista pesqueiro Charles Paxton usou o maior manto medido com confiança, de 2,79 metros, para estimar no Journal of Zoology, em 2016, que um comprimento total de cerca de 20 metros, contando os dois tentáculos de captura, é plausível. A maioria dos animais realmente medidos é bem menor.
Também pode existir uma única espécie. Quando pesquisadores sequenciaram o genoma mitocondrial de 43 lulas-gigantes do mundo inteiro, encontraram quase nenhuma variação genética e nenhum grupo regional. O estudo de 2013 na Proceedings of the Royal Society B concluiu que todas pertencem a uma só espécie global, a Architeuthis dux.
Fontes: Kubodera e Mori, Proceedings of the Royal Society B (2005); Nature (2013); NOAA Ocean Exploration (2019); Nilsson et al., Current Biology (2012); Paxton, Journal of Zoology (2016); Winkelmann et al., Proceedings of the Royal Society B (2013). Capa: exemplar de lula-gigante no Museo Alborania.
