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Urano cheira a ovo podre: o gás escondido nas nuvens do planeta deitado

Detetive Curioso
O planeta Urano como uma esfera verde-azulada clara contra o espaço escuro, fotografado pela Voyager 2
NASA/JPL-Caltech · Public domain

·3 min de leitura·Espaço·32 visualizações

Em 2018, astrônomos confirmaram que as nuvens de Urano têm sulfeto de hidrogênio, o gás do cheiro de ovo podre. A descoberta conta muito sobre como o planeta nasceu.

Se você pudesse enfiar o nariz nas nuvens de Urano, sentiria cheiro de ovo podre. E não é piada: em 2018, uma equipe de astrônomos confirmou que o topo das nuvens do planeta tem sulfeto de hidrogênio, o gás que dá ao ovo podre aquele fedor inconfundível.

Urano é o sétimo planeta a partir do Sol e um dos dois gigantes de gelo do Sistema Solar, ao lado de Netuno. A cor verde-azulada vem do metano, que absorve a parte vermelha da luz do Sol. É também o planeta que gira em volta do Sol deitado, com o eixo inclinado quase 98 graus, o que dá a cada polo um inverno escuro de uns 21 anos. Com temperatura mínima de 49 kelvin, cerca de -224 °C, sua atmosfera é uma das mais frias do Sistema Solar.

Só uma sonda o visitou até hoje: a Voyager 2, a gêmea da Voyager 1, que passou por lá em 24 de janeiro de 1986. Mesmo depois dessa visita, uma pergunta básica continuou aberta. Do que eram feitas as nuvens? Os astrônomos discutiam havia muito tempo se a camada principal era feita sobretudo de gelo de amônia ou de gelo de sulfeto de hidrogênio, mas ninguém tinha prova definitiva.

A resposta veio do Havaí. Patrick Irwin, da Universidade de Oxford, e colegas analisaram a luz infravermelha de Urano captada pelo telescópio Gemini Norte, de 8 metros, em Maunakea, com um instrumento criado originalmente para estudar os arredores de buracos negros em galáxias distantes. Logo acima da camada principal de nuvens, eles encontraram a assinatura fraca do gás sulfeto de hidrogênio, em cerca de 0,4 a 0,8 parte por milhão. "Temos a impressão digital que pegou o culpado", disse Irwin. O resultado, publicado na Nature Astronomy, indica que as próprias nuvens são feitas em grande parte de gelo de sulfeto de hidrogênio.

Não é só curiosidade. Em Júpiter e Saturno, as nuvens mais altas são de gelo de amônia, e não se vê sulfeto de hidrogênio acima delas. Segundo o cientista planetário Leigh Fletcher, da Universidade de Leicester, a diferença provavelmente foi marcada no nascimento dos planetas, porque o equilíbrio entre nitrogênio e enxofre dependia da temperatura e do lugar onde cada gigante se formou. Isso faz do cheiro de Urano uma pista sobre de onde ele veio e sobre como os planetas gigantes podem ter migrado.

Um visitante sentiria mesmo o cheiro? Irwin respondeu isso também: "Se um humano azarado algum dia descesse pelas nuvens de Urano, encontraria condições muito desagradáveis e malcheirosas." Mas o fedor seria o menor dos problemas. A asfixia e a atmosfera de -200 °C feita de hidrogênio, hélio e metano matariam a pessoa muito antes do cheiro. Aqui na Terra, pelo menos, o céu cheira melhor: o cheiro de chuva tem até nome próprio, petricor.

Fontes: Irwin et al., Nature Astronomy (2018); Observatório Gemini; NASA Science (fatos sobre Urano); ficha técnica da missão Voyager da NASA. Capa: Urano fotografado pela Voyager 2 em 1986, NASA/JPL-Caltech, Wikimedia Commons, domínio público.

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