Um dia em Vênus dura mais que um ano, e o Sol nasce no oeste

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Vênus leva 243 dias terrestres para girar uma vez, mas só 225 para dar a volta no Sol. E gira ao contrário.
Na Terra, o dia é curto e o ano é longo. Em Vênus, é o contrário. O planeta vizinho leva cerca de 243 dias terrestres para dar uma volta em torno do próprio eixo, mas só uns 225 dias terrestres para completar uma órbita em volta do Sol. Ou seja, um único dia venusiano dura mais que um ano venusiano.
Vênus tem a rotação mais lenta de todos os planetas do Sistema Solar, e ainda gira para o lado "errado". A maioria dos planetas, incluindo a Terra, gira no mesmo sentido em que orbita o Sol. Vênus gira no sentido oposto, o que os astrônomos chamam de rotação retrógrada. Urano é o único outro planeta que faz isso. Então, se você pudesse ficar em pé em Vênus e enxergar através das nuvens, veria o Sol nascer no oeste e se pôr no leste. E, mesmo assim, não é o céu mais estranho da vizinhança: em Marte, o pôr do sol é azul.
Tem um detalhe. Como Vênus gira devagar ao contrário enquanto se move em volta do Sol, o tempo entre um nascer do sol e o seguinte, chamado de dia solar, é menor que uma rotação completa: cerca de 117 dias terrestres. Isso significa que o Sol nasce mais ou menos duas vezes em um ano venusiano, mesmo sem o planeta ter terminado uma única rotação. Uma tarde em Vênus duraria uns dois meses terrestres.
Por que Vênus gira ao contrário? Ninguém sabe com certeza. Há décadas, a principal explicação envolve marés. A gravidade do Sol cria uma leve deformação no planeta, que funciona como um freio na rotação. Ao mesmo tempo, a luz do Sol aquece a atmosfera extremamente densa de Vênus e cria marés atmosféricas que empurram no sentido oposto. Em 2001, os astrônomos Alexandre Correia e Jacques Laskar mostraram na revista Nature que o equilíbrio entre essas forças pode levar Vênus à sua rotação lenta e invertida atual a partir de muitos pontos de partida diferentes. Outros pesquisadores sugerem que uma colisão gigante no início da história do planeta pode ter contribuído, mas não há prova direta disso.
A atmosfera faz o oposto do chão. Enquanto a superfície leva 243 dias para dar uma volta, o topo das nuvens percorre o planeta inteiro em cerca de quatro dias terrestres, um fenômeno chamado super-rotação. A sonda Venus Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), mediu ventos médios no topo das nuvens de cerca de 300 km/h quando chegou, em 2006, e de uns 400 km/h seis anos depois. Observações posteriores da sonda japonesa Akatsuki, publicadas na revista Science em 2020, indicaram que marés térmicas causadas pela luz do Sol ajudam a manter essa super-rotação.
E a duração do dia venusiano talvez nem seja fixa. Em 2012, a ESA informou que acidentes do relevo vistos pela Venus Express estavam até 20 km fora do lugar previsto pelas medições feitas pela sonda Magellan, da NASA, no início dos anos 1990. Eles só se encaixavam se um dia em Vênus fosse, em média, cerca de 6,5 minutos mais longo do que a Magellan tinha medido. Uma possível razão é a atmosfera densa, com pressão na superfície mais de 90 vezes maior que a da Terra, atritando com o solo e mudando a velocidade de rotação ao longo do tempo.
Tudo isso acontece no planeta mais quente do Sistema Solar, com temperatura na superfície de cerca de 460 °C, o suficiente para derreter chumbo. Vênus é o planeta mais parecido com a Terra em tamanho, mas, em quase todo o resto, é um lugar muito estranho para passar um dia. Ou um ano.
Fontes: NASA Science (fatos sobre Vênus), ficha técnica de Vênus do NSSDCA/NASA, NASA Space Place, Natural History Museum (Londres), Correia & Laskar, Nature (2001), ESA ("Could Venus be shifting gear?" e "The fast winds of Venus are getting faster"), Horinouchi et al., Science (2020). Capa.jpg): Vênus vista pela Mariner 10 em 1974, imagem reprocessada pela NASA/JPL-Caltech, domínio público.


