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Pombos aprenderam a distinguir Monet de Picasso e ganharam um Ig Nobel

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Pombo-das-rochas (Columba livia) de perfil, com plumagem cinza e pescoço verde e roxo iridescente
Alan D. Wilson, naturespicsonline.com / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.5

·4 min de leitura·Ciência·2 visualizações

Em 1995, pesquisadores japoneses treinaram pombos comuns para separar quadros de Monet e de Picasso, e as aves classificaram até obras que nunca tinham visto.

Em 1995, três psicólogos da Universidade Keio, em Tóquio, mostraram que pombos comuns conseguiam aprender a diferenciar um quadro de Claude Monet de um de Pablo Picasso e, depois, classificar corretamente pinturas que nunca tinham visto. O estudo, assinado por Shigeru Watanabe, Junko Sakamoto e Masumi Wakita, ocupou dez páginas do Journal of the Experimental Analysis of Behavior, volume 63.

O treino foi ciência do comportamento pura e simples. As aves viam slides coloridos de obras dos dois artistas e ganhavam comida quando respondiam ao pintor certo. Com o tempo, aprenderam a separar os dois estilos com segurança, sem que ninguém jamais explicasse o que é impressionismo ou cubismo.

A parte mais interessante veio depois. Quando os pesquisadores mostraram Monets e Picassos que nunca tinham aparecido no treino, os pombos continuaram acertando. Isso descarta a simples memorização de imagens: as aves tinham captado algo geral sobre o jeito de pintar de cada artista.

A equipe foi além e testou pintores que os pombos nunca tinham visto. Obras de Paul Cézanne e Pierre-Auguste Renoir foram agrupadas com Monet, enquanto obras de Georges Braque e Henri Matisse ficaram do lado de Picasso. Ou seja, os pombos traçaram uma linha parecida com a que os historiadores da arte traçam entre as paisagens impressionistas e os estilos modernos e fragmentados do início do século 20.

Impressão, nascer do sol, de Claude Monet: porto enevoado com sol vermelho e pequenos barcos
Impressão, nascer do sol (1872), de Claude Monet, o tipo de obra impressionista que os pombos aprenderam a reconhecer. Domínio público via Wikimedia Commons

Um último teste revelou como as aves olhavam os quadros. Virar as pinturas de Monet de cabeça para baixo atrapalhou o desempenho, mas os Picassos invertidos não causaram problema. Os autores sugeriram que os pombos reconheciam, em parte, objetos reais nas cenas impressionistas, como água, árvores e barcos, que parecem errados quando invertidos, enquanto as telas cubistas já não ofereciam objetos estáveis.

O trabalho rendeu a Watanabe, Sakamoto e Wakita o Ig Nobel de Psicologia de 1995, concedido pelo sucesso em treinar pombos para distinguir as pinturas de Picasso das de Monet. O Ig Nobel premia pesquisas que primeiro fazem rir e depois fazem pensar, e esta cumpre as duas metades.

Não foi um caso isolado. Em 1964, Richard Herrnstein e Donald Loveland mostraram na Science que pombos conseguiam aprender um conceito visual complexo: identificar se havia uma pessoa numa fotografia. Trabalhos posteriores mostraram que as aves conseguem memorizar mais de 1.800 imagens.

A continuação mais impressionante veio em 2015, quando a equipe de Richard Levenson e Edward Wasserman treinou pombos com lâminas de tecido mamário, em estudo publicado na PLOS ONE. Em cerca de 15 dias, o acerto subiu de 50%, puro acaso, para cerca de 85% na distinção entre tecido benigno e maligno, e se manteve com imagens novas. Somar os votos de quatro aves levou o resultado perto da perfeição, embora os pombos tenham fracassado na tarefa mais difícil, avaliar massas suspeitas em mamografias.

Nada disso significa que pombos apreciam arte. O que os experimentos mostram é que reconhecer o estilo de um pintor, algo que costumamos tratar como gosto humano refinado, pode ser aprendido só a partir de padrões visuais por um animal cujo sistema visual compartilha muitas características básicas com o nosso.

Fontes: Watanabe, Sakamoto e Wakita, Journal of the Experimental Analysis of Behavior (1995); Texto completo no PubMed Central; Improbable Research, vencedores do Ig Nobel; Herrnstein e Loveland, Science (1964); Levenson et al., PLOS ONE (2015). Capa: Pombo-das-rochas, foto de Alan D. Wilson.

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