As árvores petrificadas do Arizona são quartzo puro, e quem as rouba devolve pelo correio com cartas de desculpas

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Os troncos fósseis do Parque Nacional da Floresta Petrificada cresceram há cerca de 220 milhões de anos e viraram quartzo aos poucos. Alguns visitantes que roubam pedaços depois os devolvem, culpando as pedras pelo azar.
Os troncos caídos espalhados pelo Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, parecem madeira, mas são quase quartzo puro. As árvores cresceram entre cerca de 210 e 227 milhões de anos atrás, no fim do Triássico, e ao longo de milhões de anos a madeira foi substituída, célula por célula, por sílica, o mesmo mineral que forma a maior parte da areia da praia e toda ametista.
Tudo começou com um enterro de sorte. Segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA, árvores mortas foram arrastadas para um grande sistema de rios antigos e cobertas tão rápido e tão fundo por lama, areia e detritos que o oxigênio foi cortado. Sem oxigênio, os fungos e as bactérias que normalmente apodrecem um tronco caído quase não conseguiam trabalhar.
Vulcões a oeste forneceram o segundo ingrediente. As cinzas deles, ricas em sílica, chegaram à região e se misturaram aos sedimentos dos rios. A água subterrânea dissolveu essa sílica e a levou para dentro dos troncos enterrados, onde ela penetrou nas células e foi ocupando aos poucos o lugar da matéria orgânica que se decompunha.
O guia Trees to Stone, do próprio parque, descreve duas etapas. Primeiro a sílica transformou a madeira em opala, um passo que levou apenas milhares de anos. Depois, à medida que os troncos afundavam mais, a opala perdeu água e se recristalizou como quartzo, o que levou milhões. Os cientistas datam a floresta não pela madeira, mas por cristais de zircão nas cinzas vulcânicas ao redor, que guardam urânio que se transforma em chumbo num ritmo conhecido.
O quartzo puro é incolor, então os vermelhos, amarelos e roxos vêm de impurezas. Um guia mais antigo do NPS explica que minerais de ferro produzem tons de mostarda, laranja, vermelho e preto, enquanto o manganês produz azul, roxo e marrom. Um estudo de 2016 na revista Geosciences, de George Mustoe e Marisa Acosta, mediu metais em 35 amostras de madeira fóssil e concluiu que o ferro explica a maioria das cores, enquanto o cromo está por trás das raras peças verde-vivo do Arizona.

O quartzo também explica um detalhe estranho: muitos troncos parecem ter sido cortados com motosserra. A partir de cerca de 60 milhões de anos atrás, a lenta elevação do Planalto do Colorado colocou os troncos ainda enterrados sob uma pressão enorme. Como o quartzo é duro mas quebradiço, eles se partiram como bastões de vidro, em fraturas limpas e espaçadas ao longo do tronco. Depois, a erosão removeu a rocha de cima e os trouxe à luz.

A maioria das árvores recebeu o nome científico Araucarioxylon arizonicum, uma conífera extinta. A área foi protegida em 1906, no segundo grupo de monumentos nacionais criados pela recém-aprovada Lei de Antiguidades, e virou parque nacional em 1962. Hoje, levar mesmo uma lasquinha de madeira do parque é proibido por lei.
Alguns visitantes levam pedaços mesmo assim, e um número surpreendente deles depois os devolve. Desde 1934 o parque recebe o que os funcionários chamam de cartas de consciência: pacotes com fragmentos roubados e bilhetes que culpam as pedras por problemas no carro, doenças, mortes na família e outros azares. O arquivo guarda mais de 1.200 dessas cartas, segundo a Collectors Weekly, e o artista Ryan Thompson publicou uma seleção no livro Bad Luck, Hot Rocks.
As pedras devolvidas nunca voltam para a paisagem. Como explicou a Smithsonian Magazine, nem cartas com mapas detalhados ajudam, porque espalhar uma peça de origem incerta poderia estragar aquele ponto para a pesquisa. Em vez disso, os fragmentos acabam numa pilha da consciência ao lado de uma estrada de serviço fechada ao público.
Fontes: National Park Service: Petrified Wood; NPS: Trees to Stone (2019); NPS: Trees to Stone (2011); Mustoe e Acosta, Geosciences (2016); NPS: Perguntas frequentes; Collectors Weekly; Smithsonian Magazine. Capa: Tronco petrificado no Parque Nacional da Floresta Petrificada.

