Âmbar de 86 milhões de anos no Japão prendeu um inseto cuja família hoje só vive na África

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O âmbar de Kuji se formou quando dinossauros andavam pelo norte do Japão. Uma peça guarda um neuróptero de uma família que hoje só existe na África Subsaariana.
Em Kuji, cidade litorânea da província de Iwate, no norte do Japão, ainda se tira âmbar de rochas formadas há cerca de 86 milhões de anos, quando dinossauros andavam pela região. Dentro de um pedacinho dele, cientistas acharam um inseto predador de uma família que hoje só sobrevive na África Subsaariana.
A idade vem da rocha em volta do âmbar. O âmbar de Kuji fica na Formação Tamagawa, do Grupo Kuji, e um estudo de 2018 na Cretaceous Research datou cristais de zircão das camadas vulcânicas em cerca de 85,9 milhões de anos, no andar Santoniano do Cretáceo Superior. Isso é uns 20 milhões de anos antes do impacto do asteroide que encerrou a era dos dinossauros.
Segundo a Agência de Ciência e Tecnologia do Japão, esse âmbar é resina fossilizada de árvores da família das araucárias, parentes do nosso pinheiro-do-paraná. Às vezes aparecem fósseis de dinossauros onde ele é extraído. Já os famosos âmbares do Mar Báltico e da República Dominicana se formaram muito depois do sumiço dos dinossauros.

O inseto foi desenterrado em 2006 por Kazuhisa Sasaki, então diretor do Museu do Âmbar de Kuji. Durante anos ficou catalogado como um louva-a-deus. Em 2018, os entomólogos Hiroshi Nakamine e Shûhei Yamamoto o examinaram de perto e o descreveram na ZooKeys como um gênero e uma espécie novos de neuróptero espinhoso (thorny lacewing), Kujiberotha teruyukii, o primeiro da família já achado no Japão ou em qualquer lugar do Leste Asiático.
Esses insetos têm patas dianteiras de agarrar muito parecidas com as de um louva-a-deus, o que explica a confusão. O exemplar de Kuji tem o fêmur dianteiro mais longo de todos os fósseis da sua subfamília, cerca de 1,9 milímetro, contra um recorde anterior de uns 1,14 milímetro, e mais de 50 segmentos em cada antena. O nome homenageia Teruyuki Kagawa, ator de kabuki e cinema famoso no Japão por adorar louva-a-deus.
Os membros vivos da família Rhachiberothidae são só 13 espécies em três gêneros, todos da África Subsaariana. O registro fóssil mostra 15 gêneros extintos, sinal de que o grupo era muito mais diverso no Cretáceo e se espalhava por boa parte do planeta.

O neuróptero não está sozinho. O âmbar de Kuji também revelou um musgo fóssil, descrito na The Bryologist em 2013, e em 2025 pesquisadores da Universidade Waseda, da Universidade da Província de Fukui e da Universidade de Tóquio anunciaram sete minúsculas vespas parasitas, seis delas presas juntas numa única peça. As mesmas camadas de rocha já renderam mais de 3.000 fósseis de vertebrados de 30 espécies, incluindo dentes de dinossauro, tartarugas e crocodilianos.
As pessoas valorizavam esse âmbar muito antes dos paleontólogos. Uma análise por infravermelho publicada em 1974 na Nippon Kagaku Kaishi rastreou contas de âmbar de dois antigos túmulos nas províncias de Nara e Kyoto até Kuji, prova de comércio entre o norte e o centro do Japão no século 6. Um projeto de pesquisa nacional concluiu depois que o Japão antigo dependia do âmbar de Kuji, que perdeu espaço para as contas de vidro após o período Heian.

Hoje o Museu do Âmbar de Kuji, mantido por uma empresa local de âmbar, se diz o único museu do Japão dedicado ao âmbar, e guarda o holótipo do inseto. Os autores do estudo na ZooKeys lembram que mais de 800 inclusões de insetos de Kuji ainda esperavam descrição formal.
Fontes: ZooKeys (2018); Cretaceous Research (2018); The Bryologist (2013); Nippon Kagaku Kaishi (1974); Science Japan, JST (2025); Science Japan, JST (2023); KAKEN, projeto sobre contas de âmbar no Japão; Museu do Âmbar de Kuji. Capa: Kujiberotha teruyukii no âmbar de Kuji, Nakamine e Yamamoto, CC BY 4.0_Figure_2.jpg).
