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O terremoto de Lisboa de 1755 veio no Dia de Todos os Santos e fez nascer a sismologia moderna

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Telhados vermelhos de Lisboa com as ruínas góticas sem teto do Convento do Carmo, destruído no terremoto de 1755
NorbertNagel / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

·4 min de leitura·História·0 visualizações

Em 1º de novembro de 1755, um terremoto, um tsunami e incêndios arrasaram Lisboa. O inquérito feito depois ajudou a criar a sismologia moderna.

Por volta das 9h40 da manhã de 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, um terremoto fortíssimo atingiu Lisboa. Em poucas horas, o tremor, um tsunami e dias de incêndio destruíram a maior parte da capital de um dos impérios mais ricos da Europa, e o historiador econômico Álvaro Pereira estima que 30 mil a 40 mil dos cerca de 200 mil moradores morreram.

O desastre também arrasou a economia. Num estudo de 2009 no Journal of Economic History, Pereira calculou que as perdas diretas equivaleram a 32% a 48% de todo o PIB de Portugal, o que faz dele a maior catástrofe natural já registrada na Europa.

Segundo o museu Quake, de Lisboa, o mar veio em seguida. Entre 60 e 90 minutos depois do abalo, ondas de cerca de 5 metros subiram o rio Tejo e inundaram a beira-rio. Ondas de 10 a 15 metros atingiram a região de Sagres, mais de 10 metros chegaram a Cádis, na Espanha, e o tsunami atravessou o Atlântico, com ondas de uns 3 metros relatadas no Caribe. Enquanto isso, incêndios começados por fogões e pelas velas acesas nas igrejas para o feriado se espalharam pelas ruínas, ajudados por saqueadores.

Gravura antiga de Lisboa em 1755 com prédios em chamas e navios jogados por ondas enormes no rio Tejo
Gravura em cobre da época mostrando Lisboa destruída pelo terremoto, pelo fogo e pelo tsunami de 1755. Domínio público via Wikimedia Commons

Qual foi a força dele? Em 1949, os sismólogos Beno Gutenberg e Charles Richter sugeriram uma magnitude entre 8,75 e 9, e estimativas posteriores ficaram entre 8,5 e 8,7. Em 2020, João Fonseca, da Universidade de Lisboa, reanalisou 1.206 relatos históricos de Portugal, Espanha e Marrocos e chegou a uma magnitude de momento de 7,7, com margem de 0,5 para mais ou para menos, como explicou no Bulletin of the Seismological Society of America. A origem ficava no mar, a sudoeste da Península Ibérica, mas a posição exata ainda é incerta.

Parte do que torna esses estudos possíveis é um questionário. Em janeiro de 1756, o ministro do rei Sebastião José de Carvalho e Melo, depois Marquês de Pombal, mandou os bispos enviarem 13 perguntas a todos os párocos do reino. Elas queriam saber quando o tremor começou e quanto durou, de que direção parecia vir, quantas casas caíram, quem morreu, o que o mar fez primeiro, se a terra rachou e quanto tempo duraram os incêndios. O museu Quake lembra que milhares de respostas estão guardadas na Torre do Tombo, e um estudo na revista Cultura descreve o inquérito como um ato fundador da sismologia moderna.

A reconstrução foi igualmente metódica. Os engenheiros militares Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel desenharam uma Baixa de ruas retas e largas, e os novos prédios ganharam a gaiola pombalina. Trata-se de uma estrutura tridimensional de madeira, travada com cruzes diagonais e escondida dentro das paredes de alvenaria acima do térreo. Um trabalho apresentado na 13ª Conferência Mundial de Engenharia Sísmica mostrou que, num modelo de computador, a gaiola reduziu em cerca de 70% o deslocamento lateral de uma parede.

Estrutura de madeira exposta de uma gaiola pombalina, com vigas diagonais formando cruzes dentro de um prédio
A gaiola de madeira com travamento diagonal usada em Lisboa depois de 1755. PatrickIzzy / Wikimedia Commons, CC0

Uma história famosa diz que soldados marcharam em volta de modelos em tamanho real no Terreiro do Paço para testá-los. Professores de engenharia do Instituto Superior Técnico dizem que esses relatos são difíceis de confirmar, mas, se for verdade, teria sido a primeira mesa sísmica de que se tem notícia.

O terremoto também sacudiu o pensamento europeu. Voltaire escreveu o Poema sobre o Desastre de Lisboa em 1756 e ridicularizou o otimismo cego em Cândido, de 1759, enquanto um jovem Immanuel Kant tentou explicar os terremotos por causas naturais, e não pela ira divina. Em Lisboa, os arcos sem telhado do Convento do Carmo ficaram de pé como lembrança.

Fontes: Fonseca, Bulletin of the Seismological Society of America (2020); Pereira, Journal of Economic History (2009); Quake, Centro do Terramoto de Lisboa: história e o inquérito; Cultura (2016); 13ª Conferência Mundial de Engenharia Sísmica (2004); Instituto Superior Técnico. Capa: ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa.

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