O dedo médio de Galileu foi cortado 95 anos depois da sua morte, e ainda está exposto em Florença

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Em 1737, estudiosos que levavam o corpo de Galileu para um novo túmulo arrancaram três dedos, uma vértebra e um dente. O dedo médio segue exposto num museu de Florença.
Numa vitrine do Museo Galileo, em Florença, está um dos objetos mais estranhos de qualquer museu de ciência: o dedo médio da mão direita de Galileu Galilei. Ele foi cortado do corpo do cientista em 12 de março de 1737, 95 anos depois da sua morte, e desde então passou quase todo o tempo exposto ao público, em um lugar ou outro.
A história começa com um enterro constrangedor. Galileu morreu em 8 de janeiro de 1642, em sua casa em Arcetri, perto de Florença, ainda cumprindo a pena que a Igreja lhe impôs em 1633 por defender que a Terra gira em torno do Sol. Segundo a Britannica, ele passou esses últimos anos em prisão domiciliar. Como tinha sido condenado por "veemente suspeita de heresia", as autoridades da Igreja avisaram o grão-duque da Toscana que um grande monumento seria inadequado.
Assim, o cientista mais famoso da Itália foi enterrado quase em segredo. Seus restos foram parar numa salinha ao lado da capela dos noviços da Basílica de Santa Croce, sem nenhum monumento marcando o lugar. Seu último discípulo, Vincenzo Viviani, passou décadas lutando por um túmulo digno e até deixou dinheiro para isso no testamento, mas morreu em 1703 sem vê-lo construído.
A virada veio com Gian Gastone de' Medici, o último Medici a governar a Toscana. Segundo o Museo Galileo, o novo túmulo de mármore foi inaugurado em 1737 e recebeu os restos de Galileu e também de Viviani. Ele continua na nave esquerda de Santa Croce, bem em frente ao túmulo de Michelangelo.

A transferência foi feita por uma pequena comissão de estudiosos florentinos, entre eles o médico Antonio Cocchi, o naturalista Giovanni Targioni Tozzetti, o poeta Giovanni Vincenzo Capponi e o antiquário Anton Francesco Gori. Quando o caixão foi aberto, alguns deles levaram lembrancinhas. O relato do próprio museu lista três dedos da mão direita (o polegar, o indicador e o médio), a quinta vértebra e um dente.
Gori ficou com o dedo médio. Depois, ele passou para o estudioso Angelo Maria Bandini e ficou exposto por anos na Biblioteca Laurenziana, em Florença. Em 1841 foi para a recém-inaugurada Tribuna di Galileo e, em 1927, entrou no Museu de História da Ciência, hoje Museo Galileo. O dedo fica em pé dentro de um recipiente de vidro sobre uma base de mármore, um conjunto de cerca de 44,5 centímetros de altura, e a base traz uma inscrição comemorativa em latim do astrônomo Tommaso Perelli.
A vértebra seguiu outro caminho. Levada por Cocchi, mudou de dono várias vezes até chegar ao médico Domenico Thiene, em 1820. Em 2 de agosto de 1823, Thiene a doou à Universidade de Pádua, onde Galileu ensinou matemática de 1592 a 1610. Estudos do osso encontraram apenas leves sinais de artrite.
As outras relíquias sumiram. Capponi tinha levado o polegar, o indicador e o dente, e o rastro deles foi documentado até 1905, quando desapareceram. Em 2009 eles reapareceram num leilão, dentro de um vaso de vidro do século 18, numa caixa de madeira com um pequeno busto de Galileu no topo, vendidos como um lote não identificado. O colecionador florentino Alberto Bruschi comprou o lote, pesquisou sua origem, e especialistas do museu confirmaram que era o conjunto perdido.
Desde junho de 2010, os três dedos e o dente estão expostos juntos em Florença. O diretor do museu na época, Paolo Galluzzi, disse ao The New York Times que Galileu é "um santo laico, e as relíquias são um símbolo importante da sua luta pela liberdade de pensamento".

Fontes: Museo Galileo: dedo médio da mão direita de Galileu; Museo Galileo: túmulo monumental de Galileu; Museo Galileo: novas relíquias de Galileu encontradas (2009); Opera di Santa Croce; Universidade de Pádua; Encyclopaedia Britannica; Reuters (2010); The New York Times (2010). Capa: dedo médio da mão direita de Galileu no Museo Galileo, foto de Zde.